sexta-feira, 21 de julho de 2017

A invasão das couves

Hoje decidi deixar o carro em casa e ir a pé até ao café aqui do burgo almoçar. É uma pequena aventura porque algumas das ruas não têm passeio e é difícil navegar quando parte do itinerário não está planeado para peões, a modos que passo grande parte do caminho a pensar que há uma grande probabilidade de ser atropelada. Na restante parte penso que, como já não estou acostumada a passear na rua ao pé de carros, se calhar, é essa a causa da minha pequena fobia. Vivo tão perto de restaurantes, lojas, e paragens de autocarro, que, decidi há uns meses, devia aproveitar e viver mais à "europeia".

Magia



Continuo a ler o livro "Dinner with Persephone -- Travels in Greece" de Patricia Storace. Como o tópico em voga em Portugal é o racismo, recordei-me de uma passagem que li no outro dia, que abordava o tema do preconceito racial, e na qual a autora fala de como a discriminação não é uma coisa estática: nada garante que quem discrimina hoje não seja discriminado amanhã.

quinta-feira, 20 de julho de 2017

É a mile, é a mile

Sobre as declarações de André Ventura haveria várias coisas a dizer. No entanto, vou notar apenas dois aspectos, que até estão relacionados. 
Por aqui e por acolá, tenho ouvido (lido, sobretudo) gente a desculpar o candidato à Câmara de Loures com recurso ao argumento de que ele só verbalizou um pensamento que é partilhado por muita gente. Ora, eu gostaria de ver Portugal governado por pessoas que vão um bocadinho além do senso comum. É aquela coisa do déspota esclarecido, mas sem a parte do despotismo, só a do esclarecimento.  
A segunda observação que me ocorre fazer é a de que, se eu só for capaz de identificar os ciganos quando eles estão vestidos de preto num bairro social, é possível que acredite que todos eles vivem dependentes da ajuda do Estado. É o preconceito a gerar mais preconceito. Aquela ali em baixo é a Leonor Teles. Faz filmes e ganhou um Urso de Ouro em Berlim. Não anda nas feiras. Quantos reconheceriam que é cigana, com aquele cabelo tão curto?





Mood: very mellow



P.S. Parece que este disco saiu há menos de um mês... Obrigada, Shazam!

quarta-feira, 19 de julho de 2017

Incongruências

"You don't have a shit planet because you have clear thinking people — it doesn't happen. And you don't have shit people and a healthy planet. It will not happen. We're reflections of each other. That's all that is."

Tori Amos, 1992

Inovação sexual

Muitas vezes, penso em antigamente, em como eram as coisas. Só que as coisas nunca foram só de uma maneira antigamente, houve uma evolução ao longo da história. Surpreende-me bastante que as pessoas estejam tão agarradas ao que as coisas são hoje e pensem que chegámos à cúspide da evolução: vai ficar assim até ao resto do tempo porque não pode ser melhor do que isto. Depois sai um telemóvel novo e a malta larga o velho.

Nas relações humanas também é assim. Imaginem quando as pessoas começaram a escrever cartas pessoais umas às outras. Não acham que muita gente deve ter achado uma grande anormalidade? Devia ser mais confortante enviar uma mensagem por alguém -- um intermediário de confiança --, pois uma carta dava a possibilidade de muitas pessoas lerem o que alguém tinha escrito, enquanto que um intermediário de confiança saberia ficar calado.

Já pensaram em inovação sexual? Houve uma altura em que sexo normal e desejável era um em que a mulher tinha uma camisa com um buraco e o homem penetrava-a pelo buraco da camisa quando lhe apetecia ter sexo. Hoje em dia, ter sexo assim, é capaz de ser visto como violação. Sexo como se tem hoje era uma coisa depravada, reservada para quem era imoral, logo associado a amantes e prostitutas.

O sexo homossexual também evoluiu, por exemplo. Na Grécia Antiga, era normal haver relações homossexuais, especialmente nas camadas mais altas da sociedade, desde que se observasse certos costumes relativos à idade dos intervenientes e ao seu papel na relação. Note-se no entanto, que os costumes de homens maduros se associarem a parceiros muito jovens tanto dava para relações homossexuais como heterossexuais, pois quem era penetrado tomava um lugar passivo e inferior na relação, logo não era uma coisa que ficasse bem num homem maduro. Pelos cânones actuais, o que se fazia na Grécia Antiga era uma coisa parecida com pedofilia.

Por falar em pedofilia, vi o filme francês Ma Loute (2016) este fim-de-semana que passou e é interessante como o tema é lá abordado. Mais não digo porque estrago-vos a surpresa, se decidirem ver o filme. (Ah, se ficam enojados facilmente, preparem-se para umas cenas macabras, mas que não têm a ver com sexo.)

Pois, sexo... Se calhar, o Woddy Allen, no filme Sleeper (1973), tinha razão acerca do futuro que nos espera. Realizou-se um inquérito recentemente e parece que os americanos não têm tanto sexo como tinham antes. Ninguém sabe muito bem a razão, mas achei piada a uma parte do artigo da CNN em que se dá a entender que o que é definido como sexo está a mudar, ou seja, a Internet está a contribuir para uma onda de "inovação sexual" e parece que definir sexo não implica necessariamente incluir penetração.
Herbenick, also an associate professor at Indiana University School of Public Health, added that "we may be having less sex, but I would argue it's better sex. We actually don't know if singles are having 'less sex' since the (survey) never defined sex and doesn't ask about the many kinds of sex play that people engage in (including masturbation, oral sex and sex toy play), especially during hookups. It is possible that singles are having less frequent intercourse but about the same (or more or less) of other kinds of sex, such as oral sex or hand stimulation or sex toy play."

~ CNN, 19/7/2017



Gypsy

To the gypsy
That remains
She faces freedom
With a little fear

~ Stevie Nicks



terça-feira, 18 de julho de 2017

Reportagem 25

Foi finalmente anunciada a publicação numa data ainda a determinar dos resultados definitivos da aturada investigação em torno da pergunta o que é o homem, investigação que durou já muitos séculos,

segunda-feira, 17 de julho de 2017

A gentileza

[Começo por dizer que vou meter a foice em seara alheia e, como tal, peço já desculpa por algum eventual erro ou falta de rigor. No essencial, julgo que os meus argumentos não sairão afectados por tal.]

Este fim-de-semana, o Expresso publicou a entrevista que fez a António Gentil Martins. Havia incêndios em Alijó e Mangualde, mas foram as declarações do médico a pôr o país on fire. Aqui eu devo já esclarecer que não me passaria pela cabeça silenciar o homem. Reconheço-lhe todo o direito a ter a sua opinião e reconheço-me o direito a achar essa opinião abjecta. Como agora sempre acontece, o debate fez-se em trincheiras e cheio de rotulagens imediatas.

Gostando eu de ser um bocadinho do contra, vou pegar numa citação que não tenho vista referida. À pergunta «É católico praticante?», responde Gentil Martins «Sou. Vou à missa todos os domingos e dias santos». E aí temos um entendimento do que é ser-se católico: é ir à Missa. Pronto, assim faz mais sentido. Eu fico sempre muito surpreendida quando vejo pessoas que se autoproclamam cristãs ser sectárias. Das minhas longíquas sessões de catequese, guardo João 8:1-11. É possível que eu tenha dado ao episódio do não apedrejamento da mulher adúltera uma interpretação demasiado livre, mas encontro ali uma enorme mensagem de tolerância. Claro que, quando ser católico é cumprir o calendário ritualístico, a coisa muda de figura. Aí abre-se espaço para o julgarás.

E que julga António Gentil Martins? Segundo ele, a homossexualidade é uma anomalia. Uma pessoa vai ao dicionário e vê que anomalia significa «o que se desvia da norma, da generalidade»; é sinónimo de «irregularidade». Posto em termos estatísticos, nada a opor. Ser homossexual é uma anomalia. Ter gémeos é uma anomalia. Ser caucasiano é uma anomalia. Ter um QI de 120 na escala de Wechsler é uma anomalia. Já afirmar que anomalia foi utilizada na referida acepção é coisa de quem tem QI inferior a 90 ou não está de boa-fé. Porque as palavras foram estas: «Não vou tratar mal uma pessoa porque é homossexual, mas não aceito promovê-la. Se me perguntam se é correcto? Acho que não. É uma anomalia, é um desvio de personalidade.» Médias e probabilidades?! Nãaaaa. Moral. O que Gentil Martins quis dizer - parece-me claro - é que é uma «deformidade, monstruosidade», sentido que também surge no dicionário. Aliás, ele não quis dizer, ele disse-o; afirmou que não está correcto e que é um desvio de personalidade.

Ora, a 17 de Maio de 1990, a Organização Mundial de Saúde retirou a homossexualidade da lista de doenças. Até então, tinha sido considerada um distúrbio mental, o tal desvio de personalidade. Que um médico, entrevistado na qualidade de médico, perpetue uma noção de 1952 que não encontrou evidência empírica a seu favor parece-me ser caso a levar à Ordem dos Médicos. Seria o mesmo se tivesse defendido a lobotomia. E nada disto tem que ver com coarctar a sua liberdade de expressão. Só, eventualmente, a sua liberdade de ser médico: compete à Ordem avaliar.

Logicamente, o homem, o católico, tem direito às suas concepções morais. Mas olhemos para a sequência da entrevista. Observam-lhe que casou tarde para a época. E ele explica que «Queria escolher bem. Tem de existir uma similitude de ideias e aquela atração que não sabemos porque aparece. Sentir amor por outra pessoa.» Até aqui, totalmente de acordo. Só não percebo o acrescento «Sou totalmente contra os homossexuais, lamento imenso.» E, por isso, a pergunta impôs-se: «Duas pessoas do mesmo sexo não podem amar-se?» Porque, de facto, aquela sequência sugere que a homossexualidade não é uma questão de amor, de afecto, com tudo o que o amor envolve. E a resposta, que inclui a parte da anomalia, começa com «Ouçam, é uma coisa simples: o mundo tinha acabado. Para que o mundo exista tem de haver homens e mulheres.» Não é exactamente o mundo, é mais a espécie humana, mas, certo, não percamos o raciocínio com questões que podem ser matéria de estilo. E vamos lá aos argumentos...

Em primeiro lugar, se a homossexualidade é a tal anomalia estatística, a sua ocorrência em nada ameaça a sobrevivência do Homem. Se a preocupação é essa, talvez possam libertar o pessoal eclesiástico do dever de castidade, porque aquilo de ter de haver homens e mulheres só funciona se eles puderem copular. O que me leva ao segundo ponto: o imperativo biológico não precisa do amor romântico para nada (eu acho muito estranho ser necessário notar isto a um médico, mas teve de ser). Se nós achamos (e eu acho) que o Homem é mais que pura biologia e que o sexo vai além da reprodução, o argumento contranatura deixa de colher. Um bocadinho de coerência exige-se, por respeito ao ser biologicamente determinado a pensar que somos. Repudiamos um casamento heterossexual em que só um dos elementos é infértil e o sabe? Não, pois não? Então como pode ser isso argumento contra a homossexualidade? Eu percebo que a religião, dado o seu papel normalizador e perpetuador da sociedade, o tivesse considerado um pecado quando a concepção não tinha alternativa médica. Agora que ela existe, a homossexualidade que não se tenta conformar a um padrão heterossexual não é nenhum óbice ao aumento da natalidade. Curiosamente, os que se mostram tão preocupados com a extinção do mundo decorrente de relações afectivas que não podem biologicamente gerar filhos são os mesmos que querem impedir estas pessoas de ser pais e mães com recurso a técnicas de reprodução assistida. Algo aqui me parece inconsistente. Mas pode ser uma anomalia cognitiva minha...

Adenda: Depois da polémica, Gentil Martins enviou uma carta ao Expresso. É caso para dizer que é pior o esclarecimento que a entrevista.
Que ele nunca desejou a celeuma, nós podemos adivinhar. Provavelmente, teria preferido uma ovação, elogios públicos e a subscrição total das suas opiniões. Se não previu a reacção, enfim... Ajuda naquela parte de quem o defende usando a idade como desculpa. E, sim, nós percebemos (estou a ser optimista, quiçá) que não eram os méritos desportivos de Cristiano Ronaldo a estar em causa.
Sobre nunca ter querido ofender a mãe de Ronaldo. Ora bem... Alguém escreve «O Ronaldo é um excelente atleta, tem imenso mérito, mas é um estupor moral, não pode ser exemplo para ninguém. Toda a criança tem direito a ter mãe. Mais: penso que uma das grandes culpadas disto é a mãe dele. Aquela senhora não lhe deu educação nenhuma.» e não quis ser ofensivo??? A sério???!!! Se eu disser a Gentil Martins que um dos filhos dele é um estupor moral e que a culpa é dele, que foi, como confessa na entrevista, um pai «mais do que ausente», ele não vai ficar ofendido? Tenha dó! Até as pessoas que têm um QI não anómalo são capazes de ver isto.
E, caro Gentil Martins, os homossexuais não sofrem com a homossexualidade per se, sofrem com a discriminação de que são alvo, plasmada em entrevistas como a sua.

O futuro do trabalho e desigualdade

No Público de hoje, com Miguel Portela.

domingo, 16 de julho de 2017

Experiências e tangibilidade

"Things aren’t all so tangible and sayable as people would usually have us believe; most experiences are unsayable, they happen in a space that no word has ever entered, and more unsayable than all other things are works of art, those mysterious existences, whose life endures beside our own small, transitory life."

~ Rainer Maria Rilke, "Letters to a Young Poet"

Tarde divertida

Até dizem que estragos esperar.





quinta-feira, 13 de julho de 2017

Estado tem/sem graça

Não estou a perceber muito bem a reestruturação do Governo, que está em decurso hoje. Obviamente, Ministros não serão demitidos, mas os novos Secretários de Estado que já vi (Internacionalização, Indústria, Assuntos Fiscais, Presidência do Conselho de Ministros, Habitação) não têm nada a ver com Tancos, nem com Pedrogão Grande. Se percebi bem a retórica ante-crise, estas áreas até são áreas em que se dizia que o Governo estava a ter muito sucesso, logo vão se ver livre do pessoal de sucesso -- têm lógica, em Portugal.

Ocorre-me que talvez o pessoal que está a ser demitido seja mesmo competente e já tenha bons empregos garantidos fora do governo, enquanto que o pessoal que seria demitido por causa das crises não poderia arranjar emprego em lado nenhum a ganhar um ordenado "decente" porque os portugueses levariam a mal -- só temporariamente porque é Portugal.

Depois também não compreendo como é que o PM vai de férias a meio da crise, logo não trabalha na reestruturação do governo, mas ao fim de menos de uma semana após o seu regresso já tem a reestruturação feita ao mesmo tempo que gere as crises. É para parecer competente? O povo diz que "depressa e bem, há pouco quem..."

P.S. Quero ver o rácio homens/mulheres dos novos nomeados.

quarta-feira, 12 de julho de 2017

Que giro!

Encontrei por acaso uma marca de roupa americana que desconhecia por completo: a J.McLaughlin. Quando visitei a página de Internet, achei curioso que uma das formas como se distinguem da concorrência é através da qualidade dos tecidos, tendo eles um conjunto de tecidos exclusivos. Numa das páginas, têm um guia de tecidos em que explicam os vários tecidos que usam e pode-se seleccionar para ver a roupa por tipo de tecido. Um dos tecidos chama-se Madeira cloth e é fabricado de fio português. Explicam eles:

Lógica moderna

Nos EUA:
Diz Donald Trump, Jr., uma "pessoa de alta qualidade", que não fez nada de mal pois, apesar de ir para uma reunião com intenção de receber ajuda do Governo russo para influenciar a eleição americana, não houve ajuda nenhuma, logo está tudo bem. Só falta dizer que poupou trabalho ao FBI, se os tivesse chamado.

Em Portugal:
Diz o Chefe de Estado-Maior General das Forças Armadas que parte do material que foi roubado em Tancos já estava fora do prazo de validade e não pode ser usado eficazmente, logo não é tão mau como parece. Só falta dizer que os ladrões pouparam dinheiro e trabalho ao estado para se livrar do material obsoleto.

terça-feira, 11 de julho de 2017

Vai pegar fogo...

Publicado há 5 minutos na página do NYT:
The Times now has the email to Donald Trump Jr. offering Russian aid to "incriminate Hillary." His reply: "If it's what you say I love it."

O Novo Testamento ao contrário...

Quando vim para os EUA estudar, fui viver para uma residência universitária para estudantes mais velhos: naquela altura, admitiam alunos que estivessem pelo menos no terceiro ano da faculdade. Isto tinha muitos benefícios do ponto de vista académico, pois as conversas eram muito mais interessantes, abrangendo tópicos como religião, literatura, poesia, filosofia, política, etc.

Nos nossos tempos livres, era costume irmos em grupo, tipo matilha -- éramos todos Stouties porque vivíamos em Stout Hall --, para cafés e livrarias. Em Stillwater, OK, a única livraria a sério era a Caravan, que ficava na baixa da cidade -- uma downtown minúscula. Depois havia o Hastings, mas isso era uma cadeia de lojas que vendia livros, CDs, DVDs, brinquedos parvos, era clube de vídeo, comprava CDs e livros usados, etc., ou seja, era o capitalismo, o amor ao dinheiro; a Caravan era o amor aos livros e ao conhecimento. Julgo que, enquanto vim a Portugal terminar a licenciatura e candidatar-me ao mestrado, a Caravan fechou, para desespero de muita gente.

segunda-feira, 10 de julho de 2017

Expliquem melhor

Eu gostaria que alguém me explicasse, de forma muito simples, como é que o Primeiro Ministro vai de férias por uma semana, assim que regressa os Secretários de Estado envolvidos no GalpGate pedem para ser constituídos arguidos, depois de quase um ano de investigação do Ministério Público em que não o foram, demitindo-se mesmo a tempo de o Primeiro Ministro aceitar a demissão destes no Domingo, o dia a seguir a António Costa regressar, justificando a sua demissão dizendo que não queriam prejudicar o Governo. Só faltou António Costa chegar montado num cavalo...

Mas a Justiça em Portugal é independente do Executivo ou é apenas uma ferramenta na manipulação da opinião pública?

sábado, 8 de julho de 2017

sexta-feira, 7 de julho de 2017

As máquinas malandrecas...

No final da semana passada, recebi uma carta a dizer que a segunda prestação do pagamento do meu seguro de carro estava em atraso. Achei esquisito porque não me recordo de receber nenhuma correspondência indicando que tinha de ser paga, apesar de me lembrar que estava na altura; mas, mesmo não recebendo, tinha dado autorização à companhia de seguros para processar o pagamento automaticamente por via de cartão de crédito duas vezes por ano, logo não costumo precisar de fazer nada.

Telefonei à agente local da companhia de seguros, a Gayle, que me disse que a companhia tinha tentado processar o pagamento em Junho, mas não tinha obtido autorização do banco e tinha-me informado do ocorrido via e-mail. Fui ao meu e-mail e não encontrei nenhum aviso. Fiquei de telefonar ao banco para ver se o problema era com o cartão de crédito.

A rapariga do banco, submeteu-me a um rol de perguntas para se certificar que realmente era eu a telefonar: qual o nome do teu patrão que temos no ficheiro, qual o número da tua carta de condução, etc. Eu não sabia. Disse à moça que já mudei de emprego várias vezes e tive cartas de condução de vários estados, todas com números diferentes, logo não me lembrava a que período se referiam as respostas.

Durante o interrogatório, que achei um bocado ridículo, deu-me vontade de dizer à moça que eu estava ali a dar-lhe as respostas que ela podia usar para se fazer passar por mim, mas calei-me para ver se me livrava mais depressa. Por fim, lá se satisfez que eu era quem dizia que era e disse-me que nenhuma transacção tinha ocorrido em Junho que tivesse sido recusada, o meu cartão estava completamente operacional e o balanço estava a zero, havendo limite de crédito suficiente para o pagamento do seguro.

Mais um telefonema, agora para a companhia de seguros, cujo computador me informou que a conta estava sob aviso, o pagamento estava em atraso, o valor que eu devia já incluía uma taxa por eu estar atrasada, blá, blá, blá... Não deu para falar com uma pessoa a sério do serviço central, pois a única opção para falar com alguém era a agente local com quem tinha falado. Peço para me transferirem para ela e algum tempo depois aparece a Gayle ao telefone, que ainda se lembrava da conversa que tinha tido comigo há dias. Digo à Gayle o que o banco me disse: ninguém tinha recusado o pagamento no banco porque ninguém tinha pedido um pagamento ao banco.

A Gayle oferece-se para falar com a companhia de seguros para ver o que eles dizem e depois volta a telefonar-me. Nos serviços centrais não encontram o problema porque é tudo feito electronicamente, mas tenho até o dia 21 de Julho para pagar porque a companhia não pode pedir o pagamento ao banco -- é tudo electrónico e não dá para fazer um pedido individual e, a propósito, já retiraram a taxa de atraso, sem que fosse preciso eu pedir. Depois a Gayle diz para eu telefonar para os serviços centrais e fazer o pagamento por telefone.

Telefonei, paguei, e a operadora electrónica deu-me o número de referência do pagamento. Se a máquina se enganar outra vez, dou-lhe com o número em cima...

quinta-feira, 6 de julho de 2017

Prioridades do PS

"A única aldrabice será daqueles que falam desses assuntos sem os estudar convenientemente. Mas nós, nesta fase, não atribuímos grande importância àquilo que a liderança do PSD diz, porque também não sabemos por quanto tempo essa liderança sobrevive"

~ Carlos César

Arquivem isto em "Novas formas de enrolar os cidadãos". Eu sugeria aos membros do PS que se preocupem em governar o país e responder às questões que lhes são colocadas pela oposição -- é essa a função de uma oposição --, em vez de andarem preocupados com a forma como o PSD se governa.

Frases famosas 28

Wilde, Oscar de seu nome próprio, escreveu.

quarta-feira, 5 de julho de 2017

Rotherhithe

No sudeste londrino, há um pedaço de terra que, por causa do estranho serpentear do tamisa, e por falta de meio de passagem entre margens, está afortunadamente isolado da cidade. Até ao início dos anos 90, esta zona era quase exclusivamente ocupada por docas, que acolhiam os barcos que vinham da América, sobretudo do Canadá. As docas entretanto fecharam e deram lugar a bosques e lagos, invulgarmente descuidados para os padrões ingleses, em torno dos quais se construíram casas de dois andares com telhados angulados, que fazem mais lembrar a Suécia do que Inglaterra. De cabeça, acho que o bairro tem apenas duas mercearias, três restaurantes, um centro de saúde e dois pubs. Esta descrição não parecerá anormal a quem nunca viveu em Londres - mas é absurda para quem cá viva. Nos últimos anos, Londres tornou-se sobre-povoada, sobre-construída, sobre-poluída. Este pedaço manteve-se estranhamente desabitado, desconstruído, límpido. 

Um dos pubs do bairro é o mais bonito da cidade, e viu partir, há uns quatrocentos anos, rumo à Virgínia, o Mayflower - parece que todas as viagens a partir do bairro são feitas para longe. O outro pub fica na ponta da península que é desenhada pelo rio, e tem uma esplanada na qual é possível tomar, calmamente, refeições razoáveis com vista privilegiada para a zona financeira da cidade - ali tão perto e tão confortavelmente distante. Foi lá que jantei há umas duas ou três semanas, com amigos do tempo em que ali vivi. Um dos amigos é engenheiro civil, trabalha na maior empresa de construção do Reino Unido e trouxe dois colegas de trabalho com ele. Um destes colegas, acho que a chegar aos 60s, estava a contar-nos dos planos para explorar a Austrália. Ia lá passar nove meses, sozinho, e fazia particular questão de explorar o interior deserto. Perguntei se tinha tirado uma sabática. Não, tinha sido despedido - uns dias antes. Com ele, foram despedidos um terço dos trabalhadores da construtora. Também me contaram que decidiram parar por completo de investir nas zonas 1 e 2 de Londres, e que só iam acabar de fazer os prédios já planeados para os subúrbios da cidade. A seguir a disso, a ideia era guardar os tarecos. 

Diz-se que o melhor barómetro para a economia inglesa é dado pelo número de guindastes no centro da cidade. Para quem ache que dados científicos deste calibre não bastam: a economia britânica cresceu 0,2% no primeiro trimestre do ano, e esta taxa é a mais baixa de entre as economias avançadas. A inflação está quase nos 3%, por causa da queda no valor da libra. A produtividade caiu, a indústria também, há menos trabalhadores não qualificados a querer vir para cá, contrataram-se menos trabalhadores qualificados. Há 96% menos enfermeiros a candidatar-se para o sistema de saúde britânico. O preço dos transportes públicos sobe significativamente face ao aumento dos salários - sendo que, para referência, um passe apenas para o centro da cidade custa já cerca de 150 euros por mês. 

Eu disse, há mais de um ano, antes do referendo, que a saída do Reino Unido da União Europeia não tinha qualquer argumento económico, e que seria uma tragédia a este nível. Seria - se acontecesse. Estou ainda muito longe de estar convencido que vai acontecer. Acho que a realidade está a dar-me razão. Sem que daí retire gozo. Até porque já não vivo naquele bairro, tão estrategicamente isolado da cidade. 

Um país vergonhoso!

Quando envio encomendas pelo correio dos EUA para outro país, tenho de preencher um formulário de alfândega que é colado ao pacote: é o formulário CN 22, que contém o valor da encomenda e o seu conteúdo. Mas, para além disso, quando entregamos o pacote nos correios daqui, o empregado também digita toda a informação no computador -- ou nós metemos antecipadamente na página deles da Internet --, inclusive a minha morada e a do destinatário, e há um rastro digital do percurso da encomenda. Nesse formulário também se pode incluir a morada de e-mail ou o telefone do destinatário, mas eu costumo deixar essa informação em branco quando não a tenho e foi o que fiz na última encomenda que enviei para uma amiga em Portugal.

No entanto, os CTT ou a alfandega têm o e-mail do companheiro da minha amiga e fizeram cruzamento de dados da morada para onde enviei o pacote e enviaram um e-mail a ele, que não é o destinatário do pacote -- eles não são casados, mas vivem em união de facto. Parece que em Portugal, não há leis que regem a privacidade dos cidadãos, ou será que regressámos à época em que as mulheres não têm direitos?

Para além do e-mail enviado ao companheiro, a minha amiga também recebeu um postal em casa. Não acham isto muito "Big Brother" e uma demonstração de uma diligência extrema na coordenação dos serviços de uma empresa privada e de um serviço público em prol do assédio dos contribuintes e da violação dos seus direitos fundamentais? Imaginem o SIRESP a ser gerido assim, aposto que pouparia a vida de muitas pessoas e idas ao hospital. Mas agora vocês já sabem: a vossa vida e segurança não são tão importantes quanto os impostos que se podem sacar de uma encomenda postal.

Como imaginam, no pacote está colada a informação que os serviços aduaneiros querem e está marcado que é uma oferta, mas não há uma alma suficientemente inteligente na alfândega em Portugal para a ler ou sequer para saber que um pacote dos EUA nunca seria enviado sem a informação aduaneira. Exigir que alguém no estrangeiro tenha os números de contribuinte dos amigos em Portugal é o cúmulo da idiotice.

Se pensam que pára aqui a estupidez, enganem-se. Na página dos CTT, vocês são brindados com publicidade enganosa acerca dos envios de encomendas dos EUA para Portugal: é o serviço Express2Me, que vos aconselha a comprar nos EUA, pois o envio para Portugal é fácil e simples e os CTT preocupam-se com a satisfação dos clientes. No entanto, notem os detalhes: os CTT dizem que o cliente tem direito a 21 dias de armazenamento sem custo, ou seja, quanto mais tempo demorarem a processar as encomendas, mais dinheiro faz os CTT -- vejam as datas da minha encomenda na imagem abaixo para verem o que vos espera.


(Vou-vos dar um conselho: os EUA têm portes muito caros, não comprem cá pela Internet. Guardem o dinheiro e vão à Florida de vez em quando com uma mala vazia e comprem à vontade, desde que não acumulem mais do que 23 Kg.)

É vergonhoso...

Há alternativas aos relvados

Por que motivo milhões de pessoas por esse mundo fora gostam de pôr relvados à frente das suas casas? Porque acham bonito, dirão. Talvez. OK, mas por que motivo pensam as pessoas assim? Há uma história dos relvados e o desconhecimento dessa história talvez leve muitos a não considerarem outras possibilidades: porque não um jardim japonês ou algo de completamente novo? Na Idade Média, a nobreza de Vale do Loire em França começou a usar os relvados. Era uma forma de dizerem ao mundo: sou tão rico e poderoso que posso dedicar vários hectares a relva que não serve para absolutamente nada de útil. A partir de determinada altura, o poder de cada família nobre era visto pelas condições do seu relvado. As monarquias e a nobreza caíram, mas ficou este símbolo de poder e prestígio, e alastrou ao resto do mundo. Com os cortadores de relva do século XX, a classe média passou a ter também o seu pequeno relvado. Hoje, nos EUA, a seguir ao trigo e ao milho, a semente de relva é a mais plantada. Este é um exemplo dado por Yuval Noah Harari em "Homo Deus" para percebermos que só conhecendo o passado nos podemos libertar dele e imaginar um futuro diferente, ou melhor, vários presentes e futuros possíveis.


Excedentários

Em 2004, os Professores Frank Levy do MIT e Richard Murnane de Harvard publicaram um estudo minucioso sobre as profissões com mais probabilidades de serem robotizadas num futuro próximo. Dessa lista, excluíram os camionistas, que achavam estar a salvo do processo de robotização em curso. Na altura, não lhes passou pela cabeça que algoritmos informáticos pudessem conduzir camiões de forma segura. Não foi preciso muito tempo para perceberem que estavam enganados. Camionistas, seguranças, mediadores de seguros, guias turísticos, médicos, correctores, advogados, contabilistas, bancários, professores, etc. ninguém está seguro. Como diz Yuval Noah Harari em “Homo Deus”, muito provavelmente a grande questão económica do século XXI é: o que farão os excedentários, os desempregados, pior ainda, os “inempregáveis”? É melhor a sociedade começar a colocar já estas questões.

Uma média

Psicólogos como Daniel Kahneman mostraram que os indivíduos quando tentam avaliar experiências passadas (mesmo as mais recentes) fazem uma média entre a sensação final e a sensação mais intensa dessa experiência. Por exemplo, após um mandato de quatro anos, ninguém é capaz de fazer uma média de todas as sensações, emoções, opiniões pessoais, slogans vazios, propaganda, etc. que foi acumulando ao longo desse período. Chegada a hora de votar, o mais provável é os eleitores (sobretudo os flutuantes) fazerem uma média entre a impressão final e os acontecimentos mais intensos ou marcantes ocorridos no mandato. Há muito que os políticos sabem isso, nem que seja intuitivamente. Por isso, guardam para o fim as grandes inaugurações e as acções e medidas mais populares. Por isso, uma tragédia como Pedrogão Grande é um daqueles momentos intensos que vai pesar na hora de cada português fazer a média deste governo. Os estrategas do governo têm plena consciência deste facto e estão aflitos.

terça-feira, 4 de julho de 2017

Nova promoção turística

Aqui está o meu contributo para os novos slogans de promoção turística para Portugal e viva o Turismo!
  • Venha de férias a Portugal; o nosso Primeiro Ministro passa as dele em Espanha
  • Venha a Portugal, onde as depressões desaparecem às 18 horas
  • Nas férias em Portugal, evite seguir os conselhos da GNR: podem ser fatais
  • Portugal: o destino mais esturricado deste verão
  • Faça luto à portuguesa: enterre os mortos e vá de férias
  • Encontre a sua futura arma em Portugal
  • Não desperdice o seu tempo em Granada; em Portugal, pode comprar granadas
  • Portugal já não é para amantes; é para comprar armas o quanto antes
  • Sol, praia, e venda ilegal de armas


segunda-feira, 3 de julho de 2017

O Nada-Cola

O Primeiro Ministro António Costa está de férias em Espanha. Como já estavam marcadas, teve de ir.

As demissões

Na sequência dos incêndios de Pedrógão Grande ainda não houve demissões. Há quem ache que não vale a pena, pois as pessoas já morreram, logo não adianta demitir agora. Eu fico a modos que confusa com as coisas em Portugal.

É normal ouvir dizer que Portugal não é um país meritocrático, em que quem ascende a cargos de responsabilidade o faça por competência. Pelo que vejo e isto é mesmo uma impressão minha, muitas vezes, o aparato político convida pessoas competentes quando precisa de dar credibilidade ao sistema e, depois de as usar, demite-as ou elas demitem-se porque não querem estar associadas a um sistema tão corrompido.

A fonte da minha confusão é a seguinte: se não há demissões na sequência da tragédia, que devo eu inferir?

  • Que não há gente mais competente para estes cargos?
  • Que não vale a pena queimar as reputações de outras pessoas que substituiriam os demitidos porque é provável que aconteçam mais tragédias?
  • Que as tragédias fazem parte do processo de treino dos responsáveis pela segurança pública?
  • Que a segurança pública em Portugal é regida apenas pela sorte e aquelas pessoas que morreram e ficaram feridas tiveram azar?
  • Que, ao não demitir, o governo não assume responsabilidade pelo sucedido porque melhor não podia ser feito?
Já na sequência do roubo de armas, houve demissões e muito rapidamente. O que é que essas demissões significam?

domingo, 2 de julho de 2017

Conselhos para tudo

Já há vários dias que ando a pensar na questão do que fazer se formos apanhados num incêndio. Quando conduzo nos EUA, é normal encontrar sinais de estrada a indicar "Do not drive into smoke".


(Imagem retirada da Internet, foto de Andrew Maclean, em Oklahoma)

Fiz mesmo agora uma busca dessa expressão e nos resultados apareceu os conselhos do Oklahoma Department of Transportation ou OKDoT, como costumamos dizer. Na página deles há conselhos para quase tudo: fogos, tornados, gelo na estrada, etc. Oklahoma é o estado onde vivi mais tempo, não é um sítio muito avançado, rico, ou que tenha um governo que seja conhecido pela sua competência.

No entanto, em termos de segurança pública e de gestão de desastres naturais, é um sítio muito bom. Quando há tempestades que possam produzir tornados, há uma enorme coordenação de serviços, as TVs param a emissão normal e os meteorologistas acompanham a progressão da tempestade, minuto a minuto, e a zona que está a ser atingida. Recordo-me de ouvir Gary England uma vez na TV dizer a uma pequena cidade "Folks, you have 8 minutes to get to a safe place.", enquanto o tornado se dirigia para os seus lados. Nunca encontrei conselhos tão precisos em mais nenhum lado. (Há uma área em que ainda estão atrasados: a dos terramotos.)

A natureza dos fogos em Oklahoma é diferente da de Portugal porque o terreno é na sua maior parte planície com poucas árvores, a zona mais arborizada é o leste do estado, que faz fronteira com o Arkansas. Mesmo assim os incêndios podem ser perigosos, há áreas em que quando conduzimos não encontramos grande coisa, a não ser a linha do horizonte e nestas alturas temos de estar alerta, pois se algo acontece, temos de nos saber orientar até chegar ajuda. Deixo aqui os conselhos de como agir perante um incêndio nos E.U.A.:






sexta-feira, 30 de junho de 2017

Uma Portaria de Milhões de Euros

No artigo que publiquei hoje no jornal ECO descrevo um dos casos mais interessantes das falhas do Estado que conheci no período em que fui Secretário de Estado no Ministério da Administração Interna (abril de 2013- abril de 2015).
Esse caso diz respeito aos subsistemas de saúde da GNR e da PSP e ilustra como o mau funcionamento do Estado pode custar aos contribuintes milhões de euros todos os anos (isto é, garante a alguns grupos de interesse milhões de euros de rendas). Reproduzo abaixo esse trecho. Podem ler aqui o artigo na íntegra:

A GNR e a PSP, tal como as Forças Armadas, têm subsistemas de saúde próprios (SADs), à semelhança da ADSE, o subsistema de saúde dos funcionários públicos. Em 2011, o défice (diferença entre as receitas provenientes dos descontos dos beneficiários e a despesa) dos subsistemas de saúde da GNR e da PSP era cerca de 100 milhões de euros. Em 2014, as contas dos SADs da GNR e da PSP estavam equilibradas. Uma parte importante deste equilíbrio foi alcançado com o aumento dos descontos dos beneficiários para 3,5% em 2014, o que gerou, naturalmente, contestação. Porém, uma parte muito importante do reequilíbrio das contas dos SADs passou pela diminuição da despesa (menos 40 milhões de euros em 2014).

Quando cheguei ao Governo, as contas feitas no meu gabinete mostravam que a despesa média dos beneficiários dos SADs era quase o dobro da dos beneficiários da ADSE. Perguntei ao Comandante Geral da GNR e ao Diretor Nacional da PSP se havia algum problema de saúde nas nossas forças de segurança. Avançaram com uma explicação que me pareceu uma desculpa – que a tutela tinha demorado muitos anos a publicar a portaria. Acabado de chegar, não percebi a que se referiam. Mas não demorei muito tempo a perceber. O meu senhorio de Lisboa tem um centro de análises clínicas. Um dia, por acaso, disse-me que o seu melhor contrato era com uma das forças de segurança. Por que razão os contratos das forças de segurança com prestadores de serviços eram tão desfavoráveis ao Estado e tão generosos com os privados?

Em 2005, o Governo de então publicou o Decreto-Lei 158/2005. Pretendia-se aproximar os SADs da ADSE e equilibrar a sua situação financeira. No artigo 33º determinava-se que os contratos com os prestadores de serviços se mantinham em vigor até ser publicada uma Portaria pelo Ministério da Administração Interna e pelo Ministério das Finanças. Como acontece em muitos casos, essa portaria só viria a ser publicada muitos depois, em 2012. Impedidos de renegociar os contratos com os prestadores de serviços, os SADs foram durante aqueles anos um excelente negócio para os prestadores de serviços de saúde (estes, obviamente, eram livres de denunciar os contratos se estes gerassem prejuízo). A troika colocou grande pressão para a diminuição dos desequilíbrios nos subsistemas de saúde. E por aí se chegou à publicação da dita Portaria, que impunha despesas desnecessárias às forças de segurança. Perante a distração de todo o espectro político, valeu-nos a troika para pôr fim àquelas rendas privadas.

A pergunta que perante esta situação todos devemos colocar é: o que levou a este atraso de anos na publicação de uma simples Portaria? Bastou a assinatura de dois Secretários de Estado para o Estado passar a poupar dezenas de milhões de euros. 

Separados à nascença II

Bom e mau

"All feelings that concentrate you and lift you up are pure; only that feeling is impure which grasps just one side of your being and thus distorts you. Everything you can think of as you face your childhood, is good. Everything that makes more of you than you have ever been, even in your best hours, is right. Every intensification is good, if it is in your entire blood, if it isn’t intoxication or muddiness, but joy which you can see into, clear to the bottom. Do you understand what I mean?"


~ Rainer Maria Rilke, "Letters to a Young Poet"

quinta-feira, 29 de junho de 2017

Homem à beira de um ataque de nervos

Rex Tillerson, Secretário de Estado dos EUA -- nós não temos Ministros, temos "Secretaries" --, teve um ataque de nervos à frente do pessoal de Donald Trump. Durante o seu "ataque", acusou a Casa Branca de criar fugas de informação que comprometem a sua imagem. Na notícia do Politico lê-se:

"The encounter, described by four people familiar with what happened, was so explosive that Kushner approached Peterlin afterward and told her that Tillerson’s outburst was completely unprofessional, according to two of the people familiar with the exchange, and told her that they needed to work out a solution."

Fonte: Politico.com

Parece que o problema é que Tillerson está mal acostumado e acha-se um grande carapau de corrida:

"It was the loudest manifestation yet of how frustrated Tillerson is in his new role. He has complained about White House attempts to push personnel on him; about the president’s tweets; and about the work conditions in a West Wing where he sometimes finds loyalty and competence hard to come by. Above all, the former ExxonMobil CEO, accustomed to having the final word on both personnel and policy in his corporate life, has balked at taking orders from political aides younger and less experienced than he is."

[...]

Tillerson’s frustration with White House meddling began early and has been a persistent issue. “He went into this with a very negative attitude towards the White House,” said a former senior State Department official familiar with his thinking, who recounted that during the transition, Tillerson opposed a candidate proposed by Trump’s team simply on the grounds that Trump’s team was proposing him.

He has sometimes conducted talks with potential job candidates without telling the White House, said one person familiar with his actions. Tillerson has told senior officials that Trump promised him autonomy, and that he wanted it, according to people who have spoken to him.


Fonte: Politico.com

Que alívio!

"O governo suspirou de alívio, pelo menos para já. Depois da tragédia dos fogos, a popularidade de António Costa não foi beliscada. Pelo menos é esse o resultado das primeiras análises dos “focus group” encomendadas pelo governo na sequência dos incêndios."

Fonte: Jornal i, 29/6/2017

Bendito controle do défice!

quarta-feira, 28 de junho de 2017

Perguntas sem resposta...

Acho que, amanhã, quando acordar, não vou ler as notícias. Cada dia é mais estranho do que o anterior. Valeu-me hoje a Bloomberg ter publicado um gráfico interactivo que indica quais as profissões que têm maior probabilidade de ser automatizadas e que me tem ocupado os momentos livres.

A de bartender tem 77%, o que não compreendi de todo. Então uma pessoa vai a um bar para descontrair e ter sempre alguém com quem falar de coisas banais -- o bartender é sempre o conversador de último recurso --, como é que faz isso com o robot? Já sei que posso ter uma conversa com a Siri do meu iPhone, mas ela nem acerta quando eu lhe peço para tocar os Wham! (OK, pronto, viva o progresso! Pedi agora e acertou, quando não me tinha acertado há uns meses.)

Para testar o meu ponto novamente, perguntei à Siri algo pessoal: "Are you gay?" Perguntei porque não sabia se havia de perguntar do namorado, namorada, marido, ou esposa. Responde-me a Siri, bruscamente: "We were talking about you, not me, Rita". Mas eu sei se sou gay ou não, logo não é um tópico que me interesse. (Também não estou a ser muito razoável, pois se fosse um bartender a sério não perguntaria isso, mas nos filmes o pessoal vai para os bares queixar-se dos parceiros e ocorreu-me que eu não sabia que parceiro teria a Siri e a palavra "gay" é mais curta do que a palavra "straight" e não pensei que a Siri levasse a mal.)

Tentei outro caminho e perguntei de forma politicamente correcta: "How's your significant other?" e ela responde-me "Who, me?" Nem faz sentido esta resposta! Mudei de assunto e fiz mais outra pergunta: "Would you like to be a bartender?" E responde-me ela "I really have no opinion." Com conversas deste nível, os bares robotizados irão à falência...

Se eu quiser que me inventem uma bebida, vou pedir ao robot? Mas que robot é que iria inventar o Sex on the Beach, Long Island Iced Tea, ou o Grasshopper? Perguntei à Siri se me podia inventar uma bebida e ela fez uma busca da pergunta no Bing e apresentou-me os resultados. Ficámos conversadas.

terça-feira, 27 de junho de 2017

O nosso falhanço

Antes de Pedro Passos Coelho falar no suposto suicídio, o Observador publicou um artigo no Sábado em que um senhor, funcionário municipal em Castanheira de Pera, disse que a Protecção Civil, a Segurança Social, e a PSP só prestaram serviços às vítimas entre as 14 horas e as 18. Fora desse horário não se pode estar deprimido, parece.

No programa de rádio Sinais, de Domingo, falava-se de uma reportagem publicada no JN (não sei se é Jornal de Notícias ou de Negócios) acerca das pessoas de Soito, que foram atingidas pelo fogo no ano passado e que ainda não receberam apoio. Também se mencionou que em Pedrógão Grande, o apoio psicológico não chegou, apenas havia apoio psico-social pedido pela própria autarquia e prestado por Fuzileiros.

Estamos a falhar como sociedade e os "erros" de PPC não são a causa do falhanço: são apenas um sintoma.

segunda-feira, 26 de junho de 2017

Trovoadas e dificuldades


What have I got to do to make you love me
What have I got to do to make you care
What do I do when lightning strikes me
And I wake to find that you're not there

What do I do to make you want me
What have I got to do to be heard
What do I say when it's all over
And sorry seems to be the hardest word

It's sad, so sad
It's a sad, sad situation
And it's getting more and more absurd
It's sad, so sad
Why can't we talk it over
Oh it seems to me
That sorry seems to be the hardest word



Luto

A minha avó morreu exactamente um mês antes de eu fazer 10 anos. Como era uma pessoa a quem eu era muito chegada, o meu pai deve ter tido um pequeno ataque de ansiedade por minha causa e os meus pais mandaram-me com a minha irmã para casa de umas primas da minha mãe, pois não queriam que eu estivesse exposta ao luto.

Só para verem o quão chegada eu era à minha avó, basta saberem que a minha primeira grande discussão com os meus pais, quando eu tinha uns sete anos, foi eu a argumentar que eu não era filha da minha mãe: dizia-lhes eu, com toda a veemência que se pode ter aos 7 anos e provavelmente com os olhos muito arregalados, prestes a engolir o mundo, como anos mais tarde me diria a minha mãe que eu faço quando discuto com alguém, que a minha avó é que era a minha mãe pois era a pessoa que cuidava de mim. Eu era filha da avó; não era filha da mãe...

Coitada da minha mãe; era um bocado injusto ter ouvido aquilo porque a minha avó adorava-me tanto que basicamente me tirou à minha mãe e a minha mãe, que andava tão stressada e não sabia para onde se virar, entre trabalho, marido, mãe, filha, e doença, não se intrometeu entre mim e a minha avó. Nesse luto, talvez ir para casa das primas tivesse ajudado a minha mãe também, pois durante alguns dias não precisava de se preocupar com as filhas, enquanto vivia o luto da perda da sua mãe. Não sei bem o que ela sentiu, mas agora que penso nisso, tenho pena de não lhe ter perguntado como é que foi o luto dela. Depois das pessoas morrerem, há tantas perguntas que aparecem e que ficam por responder. Também nunca lhe perguntei a sua cor preferida, mas acho que devia ser azul.

No ano a seguir, morreu o meu avô, mas eu não era a preferida dele e ele nem era muito próximo de mim, se bem que tivesse maior afinidade com a minha irmã, só que ela era uma criança muito mais feliz do que a macambúzia da Rita, que parecia viver um drama constante, separada do mundo real, em que as pessoas frequentemente lhe diziam que era triste e aborrecida, para além da banalidade de ter olhos e cabelos castanhos. (Os adultos dizem cada parvoíce às crianças que até as crianças percebem que os adultos são parvos.)

Apesar de morar connosco desde que ficara incapacitado de viver sozinho, os meus pais acharam que a morte do meu avô não me afligiria muito e pude ficar em casa e viver o luto da família, que consistia em a minha mãe vestir preto por uns dias e não se ligar a televisão, nem se tocar música. Lembro-me de a minha mãe e as vizinhas conversarem acerca do número de dias que era adequado para se observar o luto, mas não me recordo da resposta.

Os meus pais enganaram-se. Depois do meu avô morrer, ganhei uma fobia temporária e durante alguns anos não consegui tocar em nada que pertencia ao meu avô ou à minha avó. Tinha medo dos objectos das pessoas mortas, especialmente do chapéu que o meu avô tinha usado. Por vezes, ficava parada a olhar para as coisas e a pensar, com um ligeiro nó na garganta, que não lhes podia tocar. Nunca disse a ninguém na altura que tinha esse medo. Percebi desde cedo, que não convém partilhar os nossos medos com os outros, especialmente quando somos pequenos e as pessoas grandes parecem tão complicadas e não nos oferecem grandes evidências de saberem o que estão a fazer.

É muito difícil controlar a nossa reacção a tragédias porque não obedece à lógica e muitas vezes ilustram mais os nossos medos do que outra coisa. O que é a reacção normal? Às vezes nos funerais, vê-se as pessoas a chorar e a falar com os mortos. Isso aconteceu no funeral da minha mãe, em que uma das suas melhores amigas ficou muito emocionada e, a certa altura, encontrei-me entre o caixão da minha mãe e a amiga a consolá-la e achei um bocado estranho estranho estar ali a vê-la ter uma reacção que eu nunca teria. Muitas vezes não sei como reagir, mas tenho medo de reagir mal e então fico num estado de suspensão, à espera que as coisas mudem até me sentir mais confortável e à vontade para reagir.

No dia do enterro, a minha mãe estava no meio da sala, no mesmo sítio onde estivera a mãe dela. Eu lembro-me de estar ali com a minha avó e de pedir à minha mãe para me deixar ver a cara da minha avó. Mas com a minha mãe não consegui olhar para a sua cara; depois do enterro pensei que talvez tivesse sido um erro. Talvez eu aos nove anos, com a minha avó, que foi a minha primeira perda e o meu primeiro luto, tivesse tido uma reacção melhor do que a que tive 24 anos mais tarde...

Com a cobertura da tragédia de Pedrógão Grande, anda tudo com os nervos em franja, e não há reacções que agradem a toda a gente; é como se o país estivesse numa competição de luto, em que cada um acha que sofre mais e melhor a tragédia do que o outro. Talvez fosse bom que as pessoas pudessem ir para casa de uns primos espairecer, ou desligar a TV, os computadores, e telemóveis por uns dias. Será que não há uma regra de etiqueta que se aplique ao luto moderno?

Perdas e chuva

Nas piores horas ou quando preciso de voltar para algo que me dá algum conforto, volto sempre para a música de Tori Amos. Na obra há vários álbuns que falam de perdas. "Boys for Pele" tem a fúria e a calma da mulher que perde o seu amante; "From the Choirgirl Hotel" fala da perda de uma criança devido a aborto espontâneo, de nos sentirmos perdidas no casamento; o primeiro álbum "Little Earthquakes" é sobre a experiência de não ser criança, nem ser mulher, etc.

Hoje apeteceu-me ouvir Tori Amos, "Northern Lad", de "From the Choirgirl Hotel", talvez porque fala de perdas, mas também fala de chuva...

domingo, 25 de junho de 2017

O working man

O meu amigo E. vive em Oklahoma, onde o conheci na Oklahoma State University em 1995. Agora que me recordo, acho que passei o Thanksgiving the 1997 com ele e com a família em Ponca City. É uma das pessoas mais inteligentes que conheço, mas é péssimo a gerir a sua vida profissional. Tem um curso de História, gosta especialmente de história militar, escreve divinamente, tem um sentido de humor maravilhoso, extremamente cínico e irónico, há um toque de "darkness" no homem. Começou o mestrado, mas não terminou. Uma vez mostrei-lhe um paper de economia que eu tinha escrito e ele olhou para mim incrédulo, como se eu fosse um "cadáver intelectual", e disse-me que era a coisa mais aborrecida que alguma vez tinha lido. Não me esqueço do tom da sua voz e do incómodo que senti porque, para mim, o que eu tinha escrito era bom e interessante.

Os empregos que tem são blue collar, duros fisicamente, e, sendo ele obeso, comendo mal, e não se cuidando muito bem, já tem problemas no corpo. Tem artrite, de vez em quando desenvolve tendinite, etc. Diz-me sempre que é desta que vai fazer dieta, vai deixar de beber bebidas gaseificadas, vai fazer exercício, mas esses planos futuros nunca se materializam num presente. Meses atrás, recebi notícia de que, finalmente, os planos eram mesmo seguros, havia sucesso garantido, assim que melhorarasse de saúde. Nos três meses anteriores, ele que se queixa do estado papá, tinha ficado incapacitado e teve de pedir "food stamps" e Obamacare. Tinha de fazer uma operação ao ombro antes que Trump fosse presidente, mas não fez porque diz que o enganaram quando foi comprar seguro de saúde e não comprou um que estivesse dentro do Obamacare: ou seja, comprou um caro sem grandes benefícios.

O último emprego de que me falou foi um de principiante num talho, onde ficou menos de um ano. No emprego anterior, chateou-se com o gerente porque estava com problemas nos ombros e não o deixaram trocar de função. Despediu-se no momento, sem ter poupanças, alternativa de emprego, ou seguro de saúde. Quando conseguiu o emprego no talho, chateou-se porque não lhe deram um emprego melhor, mas ele nunca tinha trabalhado com carne. Eu disse-lhe que era um princípio, ele podia fazer disso aquilo que quisesse, se se investisse pessoalmente no emprego. Não fui muito simpática quando lhe disse isto porque ele está nesta situação por escolha própria. Um homem formado podia perfeitamente sair dali e ir ensinar no secundário ou regressar à universidade e fazer um mestrado.

Ficou chateado comigo e com a minha "straight talk", mas alguns dias depois regressou e disse que eu tinha feito bem em malhar nele. Decidiu que ia manter uma mente aberta no talho e que o objectivo dele era eventualmente estudar e, daqui a dois anos, submeter-se aos requisitos para ser inspector de carne na USDA. Achei um plano bom, até lhe disse mais tarde que, quando se candidatasse à USDA, podia dizer que, como tinha trabalhado mesmo no manuseio de carne, teria uma perspectiva mais rica de quais os problemas que podiam ocorrer e de como conversar com as pessoas nesses empregos. Ele achou que eu era genial e que devia ter mais pessoas como eu a falar com ele.

Mas ser genial com os amigos não adianta nada: ele ainda está na mesma situação, pois desistiu do talho...

sábado, 24 de junho de 2017

Respeito pela propriedade privada

Independentemente do que cada um pense sobre a proposta de quotas de género nos Conselhos de Administração das empresas cotadas, e todos sabem o que penso, deve ser assinalado que o Partido Comunista Português foi o único que respeitou a vontade dos donos das empresas ao não interferir nas nomeações dos seus Conselhos de Administração.

É um mundo interessante este em que, numa votação em que se tem de escolher entre a igualdade e o respeito pela propriedade privada, seja o PCP o único partido na assembleia a respeitar a propriedade privada.

Morder a bala

Às vezes, é preciso morder a bala ("bite the bullet"). As coisas não são o ideal, mas sobrevive-se...
http://www.humansofnewyork.com/post/137356399781/im-a-customer-engagement-program-operations

sexta-feira, 23 de junho de 2017

Eu não sou comunista


Houve muita gente a querer explicar a crise da economia portuguesa só com os erros do Estado - apesar dos milhares de livros que saíram em todo o mundo sobre as falhas dos mercados. Na centro da minha explicação da crise estiveram sempre o Estado, o sistema financeiro e as empresas.
Agora defendi a nacionalização do SIRESP e voltaram-me a chamar comunista. 
Mas tudo isto tem explicação fácil: ignorância. 
Desculpem a arrogância, mas é mesmo assim.

Cuidem-se!

Depois de morrerem as 64 pessoas na consequência dos incêndios de Pedrógão Grande, o mínimo que se poderia fazer era investigar o que correu mal. Dado que não é a primeira vez que as coisas correm mal, o assunto já foi investigado antes e as falhas apontadas, ou seja, esta investigação não vai ter efeito nenhum; é apenas uma forma de fazer de conta de que algo está a ser feito pela segurança das pessoas, quando não há intenção nenhuma de seguir as recomendações.

Sendo assim, é mais honesto as pessoas terem noção de que o sistema falha e, quando falha, pode morrer alguém. Ou seja, cuidem-se e não contem com o estado português para vos salvar a vida de incêndios.


Call for papers 1




1.      Não fosse o mundo aquilo que é e não chamaríamos ninguém. Para nada e para lado nenhum.

quinta-feira, 22 de junho de 2017

SIRESP: o país numa rede de interesses

Dado o ruído sobre a rede SIRESP, escrevi um artigo para o jornal ECO com base no meu conhecimento e  experiência como Secretário de Estado no Ministério da Administração Interna. Espero ter contribuído para uma discussão mais informada. Deixo aqui um trecho. Podem ler na íntegra aqui


Os problemas surgem logo na sua criação — ver, por exemplo, o artigo de Paulo Pena no Público (acesso condicionado). A opção por uma Parceria Público-Privada (PPP) foi um excelente negócio para os privados envolvidos. Os privados desta parceria são os suspeitos do costume: SLN/BPN (hoje Galilei, uma sociedade em liquidação com milhões de euros de dívidas ao Estado português), PT (que durante muitos anos fez grandes negócios por ajuste directo com o Estado Português) e, claro, o BES (neste caso através da sua parceria com a Caixa Geral de Depósitos na ESegur). Estes associados, conhecidos pelas suas ligações ao poder político representam o pior da promiscuidade no nosso regime económico e político, como hoje todos sabemos. Esta é sem dúvida uma das razões da má fama do SIRESP.

quarta-feira, 21 de junho de 2017

Tlaloc

Tlaloc, o deus azteca da chuva, foi uma das esculturas que vi no Dallas Museum of Art, na exposição "Mexico and Me", que visitei no Sábado.



Head of the rain god Tlaloc, Mixtec, Late Postclassic period, c. 1300-1500, ceramic, tufa, stucco, and paint, Dallas Museum of Art, gift of Mr. and Mrs. Stanley Marcus in memory of Mary Freiberg

Um autodidacta louco

Saint-Simon (1760-1825), Robert Owen (1771-1859), Charles Fourier (1772-1837) e Pierre-Joseph Proudhon (1809-1865) foram os principais teóricos ou doutrinadores socialistas pré-Marx, e que este não hesitou em classificar de utópicos, por contraponto ao seu pretenso socialismo científico. Na década de 30 do século XIX, a conotação da palavra socialismo era mais ou menos isto: um sistema inventado de sociedade que privilegiava o social contra o egoísta; o cooperativo contra o competitivo; a sociabilidade contra o interesse individual; o controlo social estrito sobre a acumulação e o uso da propriedade privada; a igualdade económica ou pelo menos compensações segundo o mérito. Na realidade, as várias espécies de socialismo entretanto desenvolvidas (cooperativo, comunitário, anárquico, científico, libertário, democrático, etc.) nunca perderam de vista estas referências originais.
Dito isto, as ideias dos primeiros doutrinadores socialistas eram muito diferentes. Por exemplo, o conde Saint-Simon aspirava a um planeamento estatal através da infiltração e da persuasão de uma elite científica dedicada. Os engenheiros e artistas (pensadores criativos) formulariam planos; os cientistas avaliariam a exequibilidade desses planos; os industriais e banqueiros ficariam encarregados da sua execução. Saint-Simon seria, mais tarde, acusado de elitismo por outros socialistas.
Por seu turno, Charles Fourier era o caso paradigmático do autodidacta louco. E talvez por isso me tenha despertado curiosidade. Caixeiro, tipógrafo, caixeiro viajante, apenas se podia dedicar aos seus estudos e escritos durante algumas horas à noite. Talvez a maior fantasia de Fourier fosse que o trabalho, além de socialmente vantajoso, podia ser agradável e ajustado ao carácter e desejos de cada indivíduo. Fourier via a famosa fábrica de alfinetes de Adam Smith, onde cada um faz a sua parte da tarefa cuidadosamente dividida, como uma ameaça para a natureza humana. O trabalho “agradável” deveria ser variado, feito em cooperação e produzir coisas bem-feitas e duradouras. As famílias deveriam viver em pequenas comunidades de modo a que todos se conhecessem uns aos outros. Ao mesmo tempo, essas comunidades deveriam ser suficientemente grandes para garantir a auto-suficiência e a diversidade de talentos.
Fourier queria impedir o alastramento do princípio industrial que considerava uma ameaça à individualidade autêntica e ao prazer do trabalho. Estava convencido de que o processo de produção cooperativo podia ser mais eficiente do que o processo capitalista urbano. Ficou sempre no ar uma ambiguidade sobre o problema de as suas comunidades simplesmente voltarem as costas ao Estado e à sociedade convencional. Todavia, Fourier vislumbrava, no futuro, confederações de comunidades nacionais e depois internacionais.
Fourier foi buscar muito a Rousseau, nomeadamente a convicção de que o homem comum (honesto e natural) era mais virtuoso do que o aristocrata (sofisticado e corrupto) ou o erudito (artificial e arrogante). O homem deve ser capaz de fazer tudo, o que era muito o ideal americano de Jefferson e Jackson. Em suma, a sociedade deveria ser reconstruída de forma a garantir isto. Seria reconstruída em falanstérios cooperativos de 1 600 pessoas que cultivavam cerca de cinco mil acres. Todos teriam acesso a edifícios comuns, com serviços comuns, incluindo restaurantes, creches e salas de recreio. As necessidades básicas estariam garantidas, mas as ostentações seriam banidas pela opinião pública.
Para sua desgraça, quando as suas ideias começaram a atrair as atenções, as pessoas faziam troça ou ignoravam as suas tortuosas descrições. Seja como for, o seu princípio geral, a que chamava alternadamente “harmonia”, “solidariedade”, Unitéisme, Collectisme, Sociantisme ou Mutualisme, era tratado com respeito por alguns. Este foi o verdadeiro começo do socialismo comunitário.
Curiosamente, no século XIX, a doutrina de Fourier teve mais impacto nos EUA do que na França ou na Grá-Bretanha. Houve, de facto, várias experiências de comunidades de trabalhadores. Nenhuma destas “nobres experiências” durou muito. Alguns autores estudaram este insucesso e apontaram causas: subcapitalização, direcção financeira incompetente e um excesso de intelectuais muito exigentes e avessos ao trabalho, ou simplesmente incompetentes.
Nesta história, há outro dado que me parece curioso. Regra geral, as comunidades religiosas duram mais tempo. Talvez o amor ou temor absorvente a Deus seja a melhor (ou a única) forma de garantir a unidade de comunidades isoladas, esperançadas numa vivência mais satisfatória.


“.... lições dos fogos florestais de 2005, em álbum fotográfico..."

Luciano Lourenço é o Director do Departamento de Geografia da Universidade de Coimbra e Presidente da Direcção da Escola Nacional de Bombeiros. De entre a sua vasta produção académica sobre a temática dos incêndios florestais (pode ser consultada aqui), encontrei o artigo "As mediáticas “mãos criminosas dos incendiários” e algumas das “lições dos fogos florestais de 2005”, em álbum fotográfico. Contributo para a desmistificação dos incêndios florestais em Portugal". Deste, retirei algumas fotos ilustrativas. Sem mais comentários.

Foto. 1 - Área residencial situada na interface urbano/florestal (por razões óbvias, a localização e identificação das fotografias não é suficientemente pormenorizada)



Foto. 2 - Materiais inflamáveis no interior de uma área residencial confinante com espaço florestal.
Foto. 3 - Materiais inflamáveis no interior de uma área residencial confinante com área florestal.
Foto. 4 - Bomba de gasolina com materiais altamente inflamáveis no interior de uma área florestal, sem qualquer faixa de protecção.
Foto. 5 - Faixa de protecção exterior a uma área residencial sem manutenção.
Foto. 6 - Casa confinante com área florestal sem faixa de protecção exterior.
Foto. 7 - Pequena exploração industrial confinante com área florestal sem faixa de protecção exterior.




Foto. 8 - Estabelecimento de ensino confinante com área florestal sem faixa de protecção exterior.
Foto. 9 - Parque de campismo no interior de plena área florestal, sem faixa de protecção exterior.



Foto. 10 - Rede de água sem pressão, o que deixa a boca de incêndio sem qualquer utilidade prática.



Foto. 11 - Edificações contíguas às residências e à floresta, sem faixa de protecção exterior e sem condições de defesa fácil, situações que dificultam o combate ao incêndio florestal.

Foto. 12 - Recursos avultados para protecção de habitações rodeadas por uma baixa carga de combustível.


Fot. 14 - Depósito de carros velhos, em parte colmatados por silvas, um pormenor da falta de ordenamento e que, em caso de incêndio florestal, obriga à dispersão de recursos para salvar sucata abandonada.

Fot. 15 - Camião abandonado junto a habitação inserida em meio florestal. Na presença de fogo, o perigo aumenta substancialmente. Uma situação perfeitamente evitável.



Foto. 16 - Materiais altamente inflamáveis, no interior de área residencial confinante com área florestal, sem qualquer faixa de protecção.

Foto. 17 - Recursos humanos, em precárias condições de segurança, hipotecados na defesa de sucata, em detrimento da defesa da floresta.




Foto. 18 - Acção de emergência, perante a aproximação de um incêndio florestal. Construção de uma faixa de interrupção de combustíveis nas imediações de uma habitação de fim de semana, situada no interior de uma área florestal.

Foto. 19 - Pormenor do ponto de início de um incêndio florestal, mostrando a respectiva causa: projecção de partículas a partir de uma queima de resíduos agrícolas adjacente a uma área florestal.


Foto. 20 - Condição física pouco adequada ao combate de incêndios florestais.



Uma condição necessária do socialismo democrático

A teoria socialista (a palavra "socialista" terá aparecido em 1827 e "socialismo" em 1835) começou como uma crítica à teoria dos salários da economia clássica de Adam Smith e Ricardo: dizia simplesmente que eles eram definidos injustamente nas economias de mercado. Antes de Marx, os principais teóricos e doutrinadores socialistas (Saint-Simon, Charles Fourier, Proudhon e outras figuras menores) estavam muito longe do poder intelectual e do prestígio literário dos economistas escoceses e ingleses do laissez-faire. De qualquer maneira, o socialismo, nas suas mil e uma variantes, foi, desde o início, uma reacção e crítica ao capitalismo e um desejo (e descrição) de uma ordem social melhor.
As desigualdades de remuneração e de poder são em princípio injustificáveis, a não ser que delas decorra algum benefício público evidente, que de outra forma não poderia existir. Este argumento é invocado, nomeadamente, por John Rawls na sua Theory of Justice. A eliminação das desigualdades injustificáveis é, geralmente, considerada uma das condições necessárias para o chamado socialismo democrático. 

terça-feira, 20 de junho de 2017

As tragédias

Um dos quadros que vi no Dallas Museum of Art, na exposição "Mexico and Me", foi "As Duas Fridas" de Frida Kahlo, que ilustra a tragédia pessoal que a pintora sentiu ao separar-se de Diego Rivera. Na Frida vestida de trajes tradicionais mexicanos, temos um coração saudável, com veias que a unem à Frida vestida com roupas europeias. O coração da Frida europeia está destroçado, com uma veia cortada, que precisa de uma pinça para estancar o sangue. Neste quadro, acho interessante que seja a Frida europeia, a mais sofisticada, que esteja destroçada e em risco.

Depois de uma tragédia há uma parte de nós que morre e o resto tem de encontrar forma de continuar a viver apesar de tudo o que sucedeu. Ninguém se torna forte sem passar por tragédias: é esse o preço que se paga para ser forte. Às vezes, as pessoas ficam chateadas quando alguém é forte demais, dizem que é preciso ser mais sensível, mas não é a sensibilidade que permite que alguém sobreviva. É preciso ter cabeça fria, ser calculista, e não hesitar, coisas feias que, em tempos normais, as pessoas tentam suprimir.

Uma gargalhada assustadora

Ignazio Silone assistiu ao Comintern na década de 20 como delegado do partido comunista italiano. Um dia, numa comissão especial do executivo, discutia-se o ultimato de um sindicato britânico aos seus militantes. As secções locais que apoiassem o movimento minoritário dirigido pelos comunistas seriam expulsas. A situação era complicada, lamentava o representante do partido comunista inglês. Tanto a adesão aos princípios como a saída do sindicato poderiam levar à liquidação da minoria comunista. O delegado russo Piatnisky apresentou uma solução que lhe parecia tão óbvia como o ovo de Colombo. “As secções”, disse ele, “devem declarar que se submetem à disciplina exigida, e depois na prática fazem exactamente o contrário”. O comunista inglês replicou: “Mas isso seria uma mentira”. A sala irrompeu numa estrondosa gargalhada, que parecia não ter fim, sombria como as salas da Internacional Comunista. A anedota espalhou-se rapidamente por toda a cidade de Moscovo. A inacreditável e ingénua resposta do inglês foi imediatamente contada por telefone a Estaline e a importantes figuras do Estado, provocando por toda a parte novas ondas de galhofa.
Anos mais tarde, Silone diria que, na sua memória, esta tempestade de gargalhadas se sobrepôs a todos os discursos longos, pesados e opressivos que ouviu durante as reuniões da Internacional Comunista. A gargalhada transformou-se para o italiano numa espécie de símbolo. Geralmente, o riso está do lado da liberdade e tantas vezes a ironia lançada aos autocratas é a única forma de oposição possível. Mas aquela não era uma gargalhada saudável de homens livres. Era uma gargalhada trocista, a gargalhada do cinismo total, que não vê mais nada no mundo além do poder puro e simples.